Síndrome de abstinência

2 de dezembro de 2010

Já estava setenta e duas horas livre. Não pensava mais nela, nos seus efeitos tranquilizadores, no bem estar momentaneo que ela sempre me trazia. Eu me sentia bem. Apesar de que fazia 30 graus lá fora e eu tremia de frio acuado, sentado no canto do meu quarto. Vestindo o mesmo pijama listrado da semana passada. Aquele que ainda tinha resquicios para cheirar.

Eu estava perdido procurando as fotos nossas que já tinha queimado. Preciso de tratamento, de choque, se possível. Mas sempre quando eu estou me sentindo bem, ela aparece de algum jeito qualquer que não sei. Como um fantasma que sempre surge do nada. E me joga no chão, agora no box do banheiro chorando deixando a água fria esquentar meu corpo. Um contraditório necessário.

Esqueci a combinação do cofre onde escondi as suas cartas. Onde escondi qualquer coisa que me fizesse lembrar dos dias felizes e das lágrimas, do silêncio, indeferença posterior. Dos vasos quebrados contra a parede. Dos murros que dei nas portas do guarda-roupa. Todos os pedaços que tinham seu cheiro. Todas as coisas que me lembrasse da cor rosa era tirado de mim.

Abstinência. Delirium tremens. Está vendo? Aprendi latim por causa dela, aprendi a ler bulas de remédios para dormir. Calmantes, laxantes, indios xavantes. De hoje em diante não quero mais ouvir falar seu nome. Apesar de que o prédio onde mora é o mesmo dela. Alias, eu odeio prédios com nome de mulher. A gente sempre lembra de alguma coisa que esqueceu.

O frio do meu corpo gelado, torpe, quase-morto esperando por um cobertor de carne e osso, no caso dela, pele e osso. Mesmo assim nas noites frias eu sinto calor…quão contraditório eu posso ser em poucas linhas longe dela.

Às vezes ela é minha heroína, às vezes a vilã da história. E eu sempre vítima. Apesar de me fantasiar com roupas pretas e discursos intelectuais, a culpa é sempre minha, mas eu sempre me safo. Não entendo quanto o mundo pode ser um parque de diversões sem o divertimento.

E toda vez que eu resolvo pular do alto da roda gigante pensando que teria um paraquedas pra me salvar acabo me esborrachando no chão…sorte que tenho o poder de me recuperar. Mas sempre que a gente monta alguma coisa fica uma peça sobressalente. Minha vida é assim uma caixa de peças que ficaram pelo caminho e não tem mais lugar nesse corpo cansado de pular…

Quem sabe um dia a mulher-maravilha me salve da queda, ela e seu avião invisivel. Eu sempre quis ter um avião invisivel.Acho que estou delirando. É a falta que ela faz, mas na verdade ela nunca fez falta nenhuma.

Só o seu silêncio nos dias de chuva ou seus gritos nas noites de amor. Se fosse escolher o que eu escolheria? Não sei. Nunca sei. Só sei que eu amo as coisas que mais me assustam e mais fogem de mim. Apesar de que ela sempre volta, como uma ave de estação. Procurando abrigo do frio e comida pra passar o inverno. Mas estou cansado de servir de migalha pros pombos na praça perto do Natal. Boa noite!

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