Pra eu ficar doido, doidão!

17 de novembro de 2010

É engraçado ver como a música influencia as pessoas. Ele era louco pelos Raimundos, então resolveu tratar todas as mulheres como são tratadas nas diversas músicas da banda. E ele chegava pras menina já com um ar de malandro carioca com tino de cangando. E exalava obscenidades explicítas sobre o sexo tão bom que ele poderia fazer.

Guardava altas quantidades de maconha no porta-luvas do seu carro.Dava voltas pela cidade com o som alto e seus dread-lock esfumaçando o mundo como aquelas tias com defumador na noite de Natal ou seria Reveillon. Tudo isso pra ficar doido doidão e então poder usar as táticas de “conquista”.

Mas como era de se esperar ele nunca pegava ninguém. Era bem parecido com uma versão regueira do McLovin’ um complexo de contradições ambulantes, era o conceito perfeito de uma colcha de retalhos. Talvez o Google até tenha uma foto dele quando se digitava isso.

Chegava na mesa contando seus feitos heróicos tal qual um bardo. Adorava dizer que mulher gosta do saco grande porque quando balança enche o cu de terra. E todos fingiam rir. A originalidade nunca tinha sido seu forte. Recitava os versos das músicas como se fossem de sua própria autoria. E as meninas que não conheciam ficavam com a impressão de já ter ouvido aquilo antes. Tal qual nossos pais recitando Roberto Carlos 30 anos atrás. Só que ele escolhera a banda errada.

– Ei, guria, tá a fim de curtir um sabadão legal? Vai rolar gel lubrificante e coisa e tal! Vamos lá em casa ouvir um som?

E é lógico que nenhuma caia nesse papo conversa fiada. Nós, os amigos, sempre aconselhamos ele a mudar de estilo. Virar “rapaz sério” e voltar à realidade. Mas ele dizia que era questão de tempo. Que a mulher certa cairia na dele a qualquer momento.

O tempo passa e um dia vem na porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão. Não Não. Peraí. Só o tempo passa. A galera toda curtindo um happy hour na sexta-feira, no mesmo bar de sempre. E ele chega. Com o cabelo cortado. Sem os óculos. Parecia gente.

E apresentou a sua nova namorada. “Tão novinha, era a minha, era a melhor. Que bundinha redondinha”. Ela era realmente linda. E todos nós ficamos sem saber como ele conseguira aquela deusa. Ele não ficou muito tempo lá. Só passou pra dar um ‘oi’ mesmo. E então o resto fez uma aposta pra saber como exatamente ele conseguira.

Chutaram que era uma acompanhante paga pra gente não zuar. Outra que era estagiaria da mãe dele no Tribunal. Outra que ela era meio retardada ou então queria fazer caridade. Talvez estivesse pagando seus pecados.E nem o mais otimista dera crédito para o papo dele ou a mudança no visual. Esses sim são amigos.

Infelizmente, naquele dia ele teve uma overdose de cocaína e morreu. E ela nunca mais foi vista por nenhum de nós. Nem no enterro dele ela apareceu.

 

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