um amor quase autista

15 de novembro de 2010

Enquanto ele chorava ela dizia várias e várias frases que na verdade não entravam na cabeça dele. Rodava em devaneios sobre a vida como ela é e as crises existenciais de quando se aproxima dos 30 anos. Nas lágrimas todos os tiques se apresentam arrombando a porta e distribuindo cartões de visitas. O dele era de coçar o nariz em dois movimentos um com a palma da mão de cima pra baixo quase arrancando o pobre e o outro era com o polegar coçar a divisoria das narinas freneticamente. E o tradicional esfregar a parte de trás do cabelo como se fosse uma peruca e precisasse ser tirada.

Ela já não sabia o que fazer. E então, ela soltou a pérola preciosa. Não é o mundo que é pesado, são as coisas que você guarda. E você guarda muitas coisas. Tantas mágoas, tantas cicatrizes que poderiam ser apagadas, tantas tatuagens feitas de experiências passadas. Tantas pessoas que você tem que agradar ao mesmo tempo nos dois lados da moeda. Aquele verso ao inverso pra você cantar.

Ele então sorriu. É isso. Vou banhar de mar pra vê se ele carrega com ele todos os problemas, limpar a alma. A mente. Talvez fumar unzinho pra relaxar. A água fria da madrugada talvez seja o ideal. O ponto de equilibrio entre a saudade e a realidade. Ela então sorriu. Por ele faria qualquer coisa até entrar nas águas frias, brincar no oceano altas horas da madrugada.

Mas no fundo aquilo seria apenas um placebo, as crises de inspiração e existenciais tinham se tornado mais constante e a tendência seria aumentar o fluxo. Quase um ciclo vicioso de auto-degradação. Ela sabia também que nunca poderia consertá-lo. A sabedoria do Cumpadre Washigton se aplica aqui. Pau que nasce torto nunca se endireita. E tudo que ele tinha era muito amor e uma mente frágil.

E o dia que ela se apaixonou foi quando numa visita casual de amiga o encontrou pelado deitado no seu “escritório” com as paredes recheadas de desenhos pintados e ele todo coberto de tinta estirado em papeis de jornal. Na Tv rolava um vídeo dele tocando uma música belissíma que repetia o nome dela em cada verso.

Ele tinha perdido toda a noção da vida, era apaixonado por ela, mas preferia a indiferença com medo de marcar ainda mais o seu pobre coração enfeitiçado. Deve haver uma bruxa solta por aí que o escolheu como o alvo predileto de brincadeiras em sexta-feiras 13 ou outras quaisquer. E apesar dos pesares eles viviam um amor autista.

Ela tentando trazê-lo a realidade. Ele tentando doar um pingo de imaginação à vida dela. E nesse mar de escambos se constrói uma história de amor, que muitos poderiam considerar doentias e outros até achariam bela. Eu sento no muro e espero em paragrafos pequenos que ela em ondas construa falesias nas escarpas da montanha que é o coração dele.

 

 

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