Tempos verbais perfeitos

1 de novembro de 2010

Ela era amante das reticências e desde sempre vivera num tempo verbal imperfeito, mas insistia ser mais-que-perfeita. Acordava ao meio-dia ainda com sono, passava as noites em claro não queria perder um segundo sequer da escuridão, sua melhor amiga. Escondia as cartas erradas sob a manga, deixava a maquiagem borrada propositalmente, um desleixe programado nas curvas que a sexta-feira trazia.

Era um poço de certezas ainda confusas, preenchia o vazio das dúvidas com cimento e areia. Costumava trancar sentimentos no quarto récem erguido dentro do peito. Fagulhas de emoções eram apagadas com extintores de olhares lacrimais. Chupava pedras de gelo pra se acostumar com a frieza do seu sorriso torto.

Nos seus sonhos idealizava heroínas com seus vestidos curtos armadas até o salto, salvando mocinhos inocentes e roubando-lhes o que tinham de mais sagrado: o amor. Como uma fêmea de louva-a-deus assassinava cada amante sem sentir remorso ou arrependimento. Adorava sangue e suco de morango. Vendia os ossos para fábricas de pedras de dominó e a gordura para fazer sabonetes ou explosivos, nunca se sabe.

Vivia a sombra, como uma vampira, rubro-negra na alma e solitária na vida real. Ganhava a vida obscuramente sequestrando carteiras em bares entulhados de caçadores de sexo fácil. Fazia uma espécie de justiça com as próprias mãos. Passava o tempo livre, bastante tempo pintando quadros com rosto de mulheres sensuais com olhares tristes e enigmáticos.

Alguns diziam que era a tatuagem de escorpião que trazia nas curvas da sua lombar que hipnotizava os homens, outros citavam a boca vermelha como um convite ao pecado, mas a maioria esmagadora pendia a teoria de que ela sabia exatamente o que cada uma de suas vítimas buscava na noite fria e seca de São Paulo.

Não se sabe exatamente o que aconteceu que ela sumiu de repente. Várias teorias da conspiração foram criadas pelos redores de onde ela costumava aparecer.  Foi presa pelos assassinatos. Morta por uma das vítimas. Resolveu ir pro Norte variar um pouco o cardápio. Parou com isso e virou uma garota comum que cria gatos e usa roupas evangélicas.

Eu acredito que ela se apaixonou por um rapaz que não queria nada com ela, começou a derreter as paredes do seu cofre cardiáco e num ataque de fúria cortou os pulsos para pintar o mais belo quadro de amor que alguém jamais fizera. Agora, passara a viver realmente no passado perfeito. Morreu. Intransitivamente.

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2 Respostas to “Tempos verbais perfeitos”

  1. Rafaela Says:

    shuaHUAshua… Eu SUPER me identifiquei com algumas partes do texto. Muito bom! =D

  2. Rayanne Says:

    “Agora, passara a viver realmente no passado perfeito. Morreu. Intransitivamente.” *-*
    Perfeito, perfeito, perfeito! Seu texto é completamente perfeito.


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