nem tudo são flores, Branca de Neve!

22 de outubro de 2010

Ela acreditou em cada palavra que ele disse. Todas as mesmas promessas de campanha amorosa que tinha aprendido nos longos anos na luta partidária. Nem ele mesmo acreditava mais naquelas baboseiras floreadas com bordas douradas em papel machê. Ela ainda não o conhecia direito, ainda não conhecia direito o outro lado do amor, a parte Darth Vadder das pessoas. Era uma perola intocada récem saída da concha.

Os passeios de mãos dadas molhando o pé na água do mar eram o cúmulo do romantismo programado. Como um pôr-do-sol em vestidos florais e camisas de time de futebol. Era o momento mais feliz da vida dela, parecia um filme daqueles bem melosos da sessão da tarde.Ela era só sorrisos, ele o gentleman dos filmes ingleses.

Mas a vida é mais woodyalliana do que qualquer outra coisa. E o principe encantado foi virando sapo com o descascar do tempo. Já não era só flores e poemas, agora tinha espinhos e uma barriga de chopp.Chegava sempre atrasado, sempre cheirando a sabonete de motel. Com cara de poucos amigos e dicionários no fundo da gaveta.

Talvez Nelson Rodrigues escrevesse os seus passos, descendo as ladeiras do bairro vestindo um terno branco alinhado e chapeu de malandro. Passeando como uma dança de gafieira aportando seus olhares em todas as bundas no caminho. Ela só ficava em casa costurando as feridas do seu coração, distribuindo sorrisos amarelos a empregada. Enchendo a cabeça de novelas nas quais era a protagonista. Uma pista de dança de salão e os olhares perdidos no seu decote.

Ela se mantinha linda, perfeita apesar das surras do relógio biológico. Mas já não tinha coragem de rebolar seu perfume e as pernas perfeitas pelas ruas. Seu único espectador era o espelho gigante do seu closet. Sentia-se feia, velha e gorda já que seu príncipe não mais a procurava.Queria fugir dali, pegar o primeiro avião pra outros braços, mas não sabia como ele acordaria sem o café na mesa.

– Você está precisando de mais amor, ou de duas doses de Tequila pra alegrar um pouco essa sua vida. Posso tocar uma música pra você?Ou prefere dar uma volta na praia?

Ela não sabia como aquele fedelho tinha tido coragem de falar assim com ela. Mas ele estava certo, ela estava precisando estravazar. Soltar os cabelos, apertar a blusa, encurtar a saia e dançar. Sentir-se jovem. Mas não agora.

Ele pensou que o jogo estava ganho. Mas a vida só termina quando a buzina do último segundo soar. E é nessa hora que você deve saber se ganhou ou perdeu. Não adianta comemorar antes. E ele estava a perdendo. Apenas por pensar que ela nunca o largaria.

Um cara jovem, que escrevia poesias e tocava violão. Era tudo que ele precisava. Voltou a pintar as unhas, usar brincos, deixar o pescoço a mostra. O guri era diferente, era sincero, todo paixão. Fazia o principe parecer um rôbo com falas e atos programados. Ele não, era espontaneo, engraçado e nunca parava de sorrir sem parecer bobo.

Ela voltou a ser a mulher dos sonhos de qualquer um. Ele terminou sozinho, velho, gordo e bêbado num cabaré cheio de mulheres da vida. Não se pode dizer que perdeu, mas com certeza não ganhou. Prêmios de consolação são pros perdedores.

…mas o guri logo a largou por uma menina mais nova que fazia Medicina e tinha peitos e bunda maiores que a dela…

Não se pode dizer que perdeu, mas com certeza se deu melhor que o principe. Afinal, a branca de neve não comeu a maça envenenada e pode então escolher qualquer um dos sete anões pra se casar. Ou o resto do mundo!

 

 

 

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