Vestidos brancos, fraldas e varandas.

4 de outubro de 2010

Não sei determinar o momento exato, mas naquela hora eu pedi um coca-cola enquanto ela falava de vestidos brancos, fraldas e varandas. Entre um bocejo e um gargarejo pra limpar os dentes, ela me lembra do tempo em que eu não mijava de portas abertas nem punha os pés sobre a mesa de centro da sala. Um passado tão remoto quanto o controle da televisão que insiste em se esconder nas entrâncias das almofadas do sofá.

Assim era seu sorriso. Indecifrável. Riso de mulher. Como um quadro em que o mar se encontra com o sol lá ao longe. As vesperas do crepusculo. O silêncio vinha de repente e fazia tanto barulho que minha cabeça tonteia, ela lê a bula de um remédio tarja preta. E faz caras que se encaixavam muito bem num prisioneiro na cadeira elétrica. Cantei Caetano. Por impulso, por protesto conta o silêncio. Caminhando e cantando e seguindo a canção.Ela queria por que queria tatuar um Ganesh nas coxas. E eu sonhando com peixes Betta e cartas de baralho.

Ela me recrimina pelos resultados da eleição. Não acredita que votei no Tiririca. Então imito a dança da campanha. E ela me joga o travesseiro. Agora o sorriso é outro. É um daqueles escancarados, mostrando todos os dentes perfeitos reluzindo a meia-luz. Não tenho culpa. Sou só mais um em 30 milhões. Perdido em uma cidade grande, entre a Ipiranga e a Avenida São João tem o bar da brahma.

Ela começa um discurso politico que eu ouvia todos os dias na Universidade. Pra não dizer que não falei das flores. Eu penso no tempo em que eu tinha cabelo comprido e podia dormir o dia inteiro. Quando o maior problema era saber se meu time ganhou ou perdeu. Decorar códigos civis e penais. Processar quem eu quisesse. Sair de chinelo pelas ruas da cidade.

Lutar contra dragões e moinhos de vento, vestido com uma camisa do Che Guevara e a estrelinha do PT. Carregando no coração a bandeira de um mundo melhor, sem balas de gengibre ou jiló. E quem sabe os Pandas livre da extinção. Mas aqueles peludos não querem saber de sexo. Só do bambu. Ah! Vá. Enfia essa porra no oríficio mais próximo tá bom, eleitor.

Nunca mais deixarei minha barba crescer. Nem usarei aquela camisa vermelha. A boina eu guardo, nunca se sabe o que acontecerá com a moda mundial. Ela me beija e me pede calma. Eu olho pro ventilador no teto e tento arremessar uma bolinha de papel. Louco. PReferia viver no meu mundo na lua do que olhando esse mundo cruel. Não quero mais vestidos brancos, fraldas ou varandas.

Só coca-cola.

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Uma resposta to “Vestidos brancos, fraldas e varandas.”

  1. Anna Lígia Says:

    Igual a mim: prefiro coca-cola. (quase sempre)
    Te amo, meu GD!


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