Se houvesse um mar…

3 de outubro de 2010

Ela rasgava as palavras entre seus rabiscos. Obras primas de fundo de gaveta. A borboleta que se recusa a propagar o polén das flores, prefere guardar tudo pra si. Uma beleza egoísta self-destructive. Se escondendo atrás de personagens que se tornam invisiveis quando precisam. Super heróis sem capa e poderes. Apenas comuns, camuflados na multidão de olhares cegos.

Em sua mente as palavras travam batalhas épicas com histórias de dragões e princesas presas na eternidade das torres em chamas. Nenhum sapo irá salvá-la. Ninguém chorará lágrimas de sangue. Indiferença. Ela, frágil, repousa sentada olhando o mar com um vestido branco e uma rosa vermelha em suas mãos. Esperando por qualquer coisa. SEja uma bala perdida ou um raio. Para devolver os seus sapatinhos de cristal.

Mas não percebia. Se sentia imponente. Dona do seu próprio mundo e de suas idéias. Compradas em suaves prestações a serem pagas em outra encarnação. Não se rendia a humanidade carnal das letras em caixa alta.

Se via num quadro de Dali ou num filme de Tarantino. Indecifrável como escritas antigas em pedras que não se sabe como foram parar ali. Girava feito pião no corredor das ruas estreitas do seu labirinto emocional. Caminhava seguindo o ritmo das trombetas insuportáveis que ela tanto adorava. E se ela tivesse um coração?

Venderia cada pedaço no Mercado do Peixe como se fosse artigo de luxo. Afinal, quem tinha inventado uma coisa tão fria e sem uso quanto. Brincava com a potência gramatical de sua escrita. Poetisa. Marcando a todos nós, pobres plebeus, com um carimbo de CAPENGA. Quando se descobrirá apenas anatomicamente animalesca como o resto que ele jogara fora quando não precisava mais.

E tal qual um besouro com design completamente anti voos, ela quebra paradigmas, inventa teorias, desmistifica ditados populares e se despe de seus escudos, ou melhor, do seu campo de força protetor e abre um sorriso pra alguma coisa fora do meu alcance visual. Mas, logicamente, me ganha por completo. E nos balanços mensais somando seus ativos e passivos, despesas e receitas de idéias ela sempre estará com lucro.

Enquanto eu apenas a observo brincar com a água do mar, abrir os braços desafiando o vento buliçoso a balançar seus cabelos ficava com ciúme do perfume ele roubar. Mesmo não fazendo a mínima de como esse cheiro seria, nos meus sonhos ela está perdida entre um arco-íris e um eclipse.Recomeçando seu desfile matinal a cada minuto. Espalhando-se feito alguma patologia que eu não quis estudar. Lactobacilos vivos.

Então, ela percebe que não é feita de aço inoxidavel, e sim da mais fina porcelana. E pode se quebrar. Não adianta esconder as cartas em garrafas e enviá-las ao mar. Elas sempre voltam. Como aquele poema que foi arrancado do caderno e vive guardado no mais precioso cofre, em seu peito protegido por uma mensagem criptogradada em braile.Sempre haverá alguém pra decifrar e dizer que ela é humana. De carne, osso e sonhos. Como todos nós…

E eu só posso observar o mar a levar pra bem longe. (Como se aqui tivesse mar, como se ela existisse)

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2 Respostas to “Se houvesse um mar…”

  1. Jéssica Says:

    Obrigada! *-*

  2. Jéssica Says:

    Agora que vi que o texto foi considerado um dos “melhores”. Tô aqui com pontinha de orgulho, viu?! 😛


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