A unha e guerra unilateral.

24 de setembro de 2010

– Quebrei a unha. – diz ela mostrando pra mim o dedo indicador com uma irregularidade quase imperceptivel na unha. E faz aquela carinha de menina chorosa que me faz sentir pena e tesão. Quase uma lolita da minha idade. Seu jeito de garotinha entorpece os meus sentidos. Então respondo com um beijo paternal no dedo e vou subindo assanhado braço acima com um desvio de percurso básico em seus seios de mulher. Na escalada roço minha barba grossa em seu pescoço. Arranco algumas risadas, cócegas de amor. Então um beijo desesperado encerra a conversa silenciosa.

– Para, amor, você não vê que quebrei a unha! – ríspida mas com o bico ainda em sua boca ela me repele. Parece que seu reino encantado acabara de ser atacado por uma horda de orcs. E aparentemente eu tinha alguma culpa na invasão. Acho que foi porque eu não dera atenção devida aquela unha.

Odeio unhas grandes. Corto as minhas todos os dias, claro que é pra não alimentar minha mania compulsória de roer. Também não me importo se tal mulher tem unhas compridas e vermelhas ou se as têm no casco e pintadas de roxo. Unha não chega a ser nem acessório de uma dama. Perde pra brincos, pulseiras, lacinhos na sandália. Na verdade, unha está pra acessórios femininos como Plutão está para os planetas. Aliás, uma vez na 6ª série perdi pontos numa questão ao esquecer de colocar Plutão como planeta, será que consigo um recurso pra reaver esses pontos?

Ao tentar me esquivar de uma conversa mais séria levantei e fui em busca de algum alcool na geladeira. Ao voltar com a Stella em minhas mãos, a encontro com olhos em fogo e uma expressão demoniaca de choro ataca.

– Você nunca dá atenção aos meus problemas. Quando seu time perde eu tenho que ouvir horas e horas porque o técnico escalou fulano no lugar de Sicrano que o mundo inteiro sabe que é melhor. Resmunga a falta de sorte por aquela bola ter batido na trave. Agora quando minha unha quebra, QUANDO MINHA UNHA QUEBRA na vespera do casamento da minha melhor amiga você ignora e vai buscar uma cerveja.

E então descarrega todos os anos juntos. Tudo que sempre jorra nas brigas. Todo mesmo roteiro dos confrontos unilaterais abastecidos por monologos intermináveis. Eu a olhava quase vomitar palavra por palavra, mas o que eu pensava realmente era que a porcaria do casamento da amiga dela seria justo no dia do show daquela banda que nunca vem na minha cidade. Depois pensei em quem votar pra Deputado Estadual. Maldita cerveja quente.

Até que as lágrimas escorreram pelo rosto dela formando um caminho negro tão belo quanto os de um guepardo. Era chegada a hora de virar o jogo. Um abraço apertado, mil beijos, declarações sinceras e outras nem tanto. Serei pra sempre seu. Blá blá blá. Se quiser eu saio agora às 4 da manhã atrás de unhas pustiças, tônicos que fazem crescer instantaneamente, busco a mais competente manicure do mundo, se quiser compro luvas e um chapéu pra combinar.

Ela esboça um sorriso tímido. Redundante. (Venci mais uma). Se aconchega no meu peito e diz: – Fica comigo pra sempre. Promete? – prometo a eternidade e mais algum tempo.

Desculpa se fui grossa. É a TPM. Suspeitei desde o principio. Essa maldita sigla me persegue e além do mais é o melhor motivo usado pras mulheres pra explicar qualquer ato insano e impensado. Te amo. E adormeceu engolindo soluços do seu choro silencioso.

Então, pensei. Será que tem outra cerveja na geladeira ou aquela foi a última?

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2 Respostas to “A unha e guerra unilateral.”

  1. Sol Says:

    Se como vc, todos os homens soubessem como resolver um problema tão simples, todas nós seríamos felizes.


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