sente saudades até das coisas ruins.

13 de setembro de 2010

Enquanto tira a toalha de cima da cama, ela esbraveja toda sua raiva contra ele que apenas erge os olhos por sobre o ombro enquanto assiste a um seriado na TV. De relance ele sorri pensando na quantidade de louça na pia. Indiota. Ela sempre enfiava um n. Sempre que podia ou até quando não.

Estou gorda? Ela desfilava sua bunda perfeita num shortinho apertado, mas sempre indagava aquilo. Não, amor, nunca. Ele simplesmente respondia como um robô programado. Mal sabe ele que essa resposta tem que ser dada num conluio de olhares talvez seguido de um beijo na nuca que deixe arrepiados todos os poros da parte anterior da coxa.

Aquele relacionamento estava por um fio.

Então, ela me liga. Começa com um argumento falho. “Você que entende de relacionamentos me dá uma ajuda”. Como se eu realmente entendesse algo. Só escrevo besteiras que gosto.

Recitei alguns poemas de separação. Ela me contou tim-tim por tim-tim. Detalhes até meio desnecessários. Como os barulhos nojentos que ele fazia quando gozava. Eram tantas reclamações que dei um xeque. Ele tem algo de bom? Por que você ainda está com ele? O silêncio no outro lado do telefone foi constrangedor. Xeque-mate.

Com um “preciso desligar” arrastado. Quase soletrado. A conversa acabou. Horas depois, enquanto eu preparava meu almoço, ela tocou a campainha e aos prantos gritou em meu ouvido: ACABOU! E contou novamente toda sua história acrescentando os últimos capítulos inéditos pra mim. Esqueci o arroz no fogo. Cheiro de fumaça exalou pela sala. MAs ela era mais importante.

Posso passar o dia aqui. Até a vida inteira. Você é demais, sabia? Obrigado. Fiquei sem almoço e sem minha garrafa de vinho que comprara pra espantar o tédio do Domingo. Agora ela está ali deitada em minha cama. Seu sono desesperado de quem tirou um peso das costas. Ela sorri nos meus lençóis, abraçando meus travesseiros. Como um anjo. Mal sabe ela que o sofrimento só começou. A saudade dói. Mesmo aquela saudade dos defeitos. Dos problemas. Das brigas. Da injustiça.

Amanhã tudo vai estar rodando em seu mundo. E não será culpa do vinho.

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