Rainha Do Barulho

17 de agosto de 2010

Joan Jett

Que monte de banha fedida ele se tornou, foi o primeiro pensamento de Samanta antes de se levantar pra escovar os dentes. Como alguém pode mudar tanto assim? Olhou no espelho e se viu do mesmo jeito de 30 anos atrás. Era mesmo diferente. Normalmente, as mulheres se acham mais feias do que realmente são. Ela não. Sempre considerou ser a mulher mais bonita do mundo. Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu? Agora não entendia como ainda estava com aquele traste que além de tudo a traíra com a secretaria. Aquela peituda do nariz torto. Quando chegar aos 40 vai ter que juntar os peitos no chão.

Não sabia como mesmo separados continuava fazendo amor com ele todas as sextas. Certos hábitos são difíceis de ser largados. Já são 30 anos fazendo sexo toda sexta-feira, que eles não conseguem deixar de fazê-lo. Acho que será pra sempre assim. Incrível como as coisas evoluem ou des-evoluem, se é que isso existe. Acho que é inevitável. Ou irreversível. Sei lá. Era tudo mais fácil antigamente. Mesmo sem dinheiro e perfumes caros.

Como podia ter amado aquele homem? Cada vez que se perguntava, sabia que era retórica, sabia a resposta de cor. Simples. O fascínio que toda jovem de 20 anos tem por caras no palco. Ele era um guitarrista cabeludo que conseguia dedilhar os melhores solos de Hendrix. E ainda cantava com perfeição Stairway To Heaven, sua música predileta. Ele era a cara dos anos 70. Pena que tenha ficado lá. Passou de roqueiro desmiolado pra empresário bem sucedido, passando por todas as etapas dessa metamorfose e passando por cima da cabeça de outros, como dita a cartilha do homem rico.

Rainha do Barulho, assim que a chamavam. Tocava guitarra também. Todo homem que curtia rock da cidade era apaixonado por ela. The Runaways, sua banda predileta. Com essa lembrança percebeu o quanto mudara. Depois do casamento parou de ouvir Rock. Se apaixonou por Chico Buarque, Roberto Carlos, Geraldo Azevedo e essas coisas que chamam de MPB. Trocou as roupas pretas por vestido de madame. Seu bulldog francês por um maltês. Parou de beber. Parou de fumar maconha. E tomar LSD. Sexo só com camisinha. Tem 3 filhos pra criar. Dona de casa exemplar, fiel e companheira.

Mas o lado Cherry Bomb de sua personalidade não poderia ser apagado assim facilmente, então toda vez que ia pro Motel com seu amante 20 e poucos anos mais jovem ela se fantasia de Joan Jett e faz um showzinho animado e pede pra ser fodida ao som de ora The Clash, ora Ramones. Às vezes foge dos clássicos pedindo Dead Kennedys ou Wire.

Seu vigor parece renovado, sua vontade de viver volta, a pele fica mais bonita, dizem. Mas sentia que estava se apaixonando por aquele rapaz que era quase uma cópia do seu marido 30 anos atrás. Ria do esforço juvenil dele em mostrar a sua nova música composta falando de algum amor perdido. Ele tinha talento, um rostinho bonito e com o empurrão certo poderia ganhar muito dinheiro, sucesso e mulheres a rodo, ela pensou. Mas está aqui comigo, reagiu o lado bobinho dela. Enquanto chupava o pau dele.

Depois da terceira ele dormia um pouco. Afinal, mesmo jovem ele não era de ferro. E ela fitava o seu corpo nu. E não acreditava como aquele mesmo amante tão vigoroso, fogoso e bruto poderia se transformar no garoto atrapalhado de óculos de avô que era um estereotipo desprezado pelos alunos da faculdade. Outro dia tinha visto uma banda que tinha um desses como vocalista, acho que era Izzy ou algo do tipo. Boa banda. Aquela do clip dos carinhas lutando sumo. Weezer. Isso. Bem lembrado.

Não acreditava como ainda tinha paciência pra ouvir todos os planos daquele garoto. Ela só pensava no sexo. Não queria saber dele. Não podia querer saber dele. Não podia se apaixonar. Ele era da idade da filha mais velha. Ele era apenas um brinquedo, repetia diversas vezes acreditando que pelo cansaço convenceria sua mente daquilo. Não podia ser tão difícil. Passara anos destruindo corações alheios, destroçando-os sem dó nem piedade. Rainha do Barulho. Espelho, espelho meu. Por que simplesmente não poderia viajar. Isso. Uma volta ao mundo era o ideal. Sem compromisso. Tal qual uma andorinha. Sem verões. Odiava o calor.

Já era hora de ir. Por quê? Não tinha mais marido, não tinha que dar satisfação pra mais ninguém. Ele não era mais um amante. Era um ficante. Coisa moderna. Será que ele poderia se tornar namorado? Marido? Filhos? Não, Samanta, tu não tem mais idade pra essas coisas. Só sexo. Sexo bom e barato. Não é sempre que se encontra um homem capaz de dar orgasmos múltiplos. Pensou a vida toda ser um mito. Mas existia. E era aquele garoto, o anti-heróis era o Deus do Sexo. Com seu pau colossal e sua aura de criança indefesa. Toda mulher devia ter um desses na vida. Instigava o lado mãe e o lado mulher igualmente.
Perfeito. O amante ideal. Tinha que contar isso pras amigas da academia. Não, melhor não. Vai que aquela perua da Lúcia resolve roubá-lo de mim. Odeio aquela vaca. Mas devo admitir que ganhou a sorte grande casando com um cara lindo e rico. Rico não, bilionário. Aposto que ele não agüenta o fogo dela e ela possui um amante também, e certamente ele não é tão bom quanto.

– Oi, meu bem, ontem assisti um filme sobre uma banda que acho que você poderia gostar. Ela me lembrou muito você. Acho que você até conhece, é da sua época.

– Qual filme? Qual banda? – na verdade o que ela escutou de tudo que ele falou foi apenas o “da sua época”. E aquilo doera nela bem mais do que poderia imaginar. Não tinha escapatória. Estava morta. Apaixonada. Inevitável e irreversível.

– The Runaways, com Kirsten Stewart e Dakota Fanning. Conhece a banda?

– Claro. Era minha banda predileta NA MINHA ÉPOCA.

Ele percebera o que tinha feito. Levantou ainda desnudo e se serviu de uma dose generosa de whisky. Sem gelo. Era o melhor remédio pra aplacar qualquer nervosismo. Qualquer arrependimento.

– Eu tinha uma banda punk. Entre as quais a gente tocava Runaways. Eu sempre quis ser a Joan Jett. Achava ela o máximo. – falou de forma arrogante sem tirar os olhos daquela maravilha que era o pau dele. Imaginava se era ali que residia o veneno, a poção de amor #9 daquele rapazola.

Não conseguia resistir. Era hora de mais uma. Desta vez o Motel inteiro iria saber porque ela era chamada de a Rainha do Barulho.

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Uma resposta to “Rainha Do Barulho”

  1. Dricolina Says:

    eh mesmo… toda mulher deveria ter um desse na vida… de preferencia sem prazo de validade.


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