O libertador

12 de julho de 2010

Dizem que um homem faz muitas loucuras por uma mulher. E minha primeira loucura que posso lembrar foi quando eu tinha 9 anos e estava no recreio da escola. Elys Souto era a menina mais linda da 3ª série, tinha longos cabelos loiros encaracolados, uma voz doce e os olhos verdes mais encantadores que já conheci. Quando ela chegava perto de mim, eu não conseguia nem encará-la. Ela era da outra sala, portanto não tínhamos muito contato, quase não conversávamos.

Lá estava eu tranqüilo comendo o meu sanduíche de queijo com suco de maracujá, quando ela, Elys Souto, sentou ao meu lado e apontando para o meio do pátio perguntou:

– Porque você não joga futebol com os outros meninos?

– Porque eles são maiores e posso me machucar – respondi interpretando as palavras da minha mãe.

– Aposto que você pode jogar melhor que eles – retrucou com um ar confiante que me fez criar coragem.

Não sei onde eu estava com a cabeça quando me levantei e fui perguntar para o garoto que aparentemente liderava o jogo se tinha vaga pra eu jogar.

– Você sabe jogar no gol? – perguntou ele.

– Claro – respondi apesar de nunca ter jogado naquela posição em toda minha vida.

– Eu acho que não – duvidou o Pablo.

– Quer ver? Chuta um pênalti pra me testar. Se eu defender, deixa eu jogar. – não sei onde tirei toda aquela coragem para desafiar aquele menino de 12 anos que parecia um gigante perto de mim.

– Tudo bem, abusado, vou chutar cinco pênaltis. Quem ficar com a vantagem ao final, ganha.

Concordei e dei aquele sorriso maroto para Elys que acompanhava bem atenta aquela conversa e o que viria a acontecer depois.

Fui caminhando lento em direção ao gol. Pablo já estava posicionado. Eu só pensava em Elys, nem conseguia me concentrar na bola ou no Pablo. Um primeiro chute no ângulo sem defesas me fez voltar à realidade.

– 1×0, baixinho.

O rosto do Pablo agora estava em minha mente, lembrei que a tensão da primeira cobrança agora fora substituída por um sorrisinho sarcástico. Prometi a mim mesmo defender aquela cobrança a todo custo. Um segundo chute com toda potência no meio do gol direto na minha testa. Caí para trás e apaguei por um segundo com o pessoal perguntando se eu estava bem.

– 1×1 – gritei ainda me levantando.

Pude ver o semblante de preocupação na Elys e aquilo me fez dar um sorriso meio sem querer. Era o máximo pra mim, estar no pensamento dela, e ainda era mais importante ter a atenção dela. Um terceiro chute no canto esquerdo indefensável.

– 2×1.

Tudo bem que eu nem me mexi, mas aquele terceiro chute me fez aprender uma coisa. Que o goleiro deve observar o cobrador como um todo porque o mesmo dá algumas dicas de onde vai cobrar aquele pênalti. Comecei a sorrir.

– Porque tu estás rindo, idiota? Não vê que se eu fizer esse você perdeu e nunca mais vai jogar bola aqui no pátio?

– Eu sei disso. Eu to rindo é porque já ganhei essa disputa. Vou pegar esses dois próximos chutes teus e amanhã tu vai implorar pra eu jogar no teu time. – até hoje não acredito que eu tenha dito isso, fato que me foi confirmado por algumas testemunhas daquele dia.

Um quarto chute no canto esquerdo novamente e uma defesa digna de um goleiro profissional. Muitas vezes eu respondi que esse foi o meu melhor pênalti defendido.

– Não falei. 2×2.

Agora pude ver a raiva no rosto do Pablo. Tinha certeza aonde vinha aquele decisivo pênalti. Um quinto chute a meia altura no canto direito e lá fui eu voando pra conseguir segurar a bola.

Nem lembro mais do Pablo ou da Elys nesse dia. Sei que fui abraçado e carregado pelos meus amigos de sala. Parecia que eu seria um salvador, porque com aquelas defesas eu tinha libertado o pátio e dado a democracia de que a 3ª série podia também disputar os jogos. E a partir daí até disputar o inter-classes do colégio.

Naquele dia me apaixonei pela posição de goleiro e mais que isso, aquelas defesas me renderam no outro dia o meu segundo primeiro beijo. Talvez por causa desse beijo que eu tenha me tornado um goleiro. Hoje, agradeço a tudo de bom e ruim que aconteceu na minha vida a Elys.

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2 Respostas to “O libertador”


  1. […] texto faz sentido se conhecer o primeiro beijo e o dia seguinte Escrito por George GD Arquivado Contos Deixe um comentário […]


  2. Ela tinha que ter sido botafoguense pra te livrar do Santos :\ HAHA 😛


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