Ana

9 de julho de 2010

O tédio era seu melhor amigo, na verdade não costumava chamá-lo assim, gostava de passar um tempo só, pensar, refletir. Sentada em seu banco preferido nos amplos jardins de sua casa, a madrugada não parecia assustá-la. Era fã do silêncio, mas mesmo assim resolveu dedilhar algo em seu violão. Aquele clima soturno era propício.

But I’m in so deep. You know I’m such a fool for you.
You got me wrapped around your finger, ah, ha, ha.
Do you have to let it linger? Do you have to, do you have to,
Do you have to let it linger?

Sua voz ecoava nas paredes brancas e dava a impressão de ser a melhor cantora da face da terra. Mas a emoção contida naquelas palavras era tanta que até era crível. Lá do alto do muro, sentado, tomando um copo de vinho alguém a observava, mas estava oculto pelas lágrimas que escorriam do rosto dela.

Ao fim da música, Ana notou que algo estava diferente. Uma leve brisa batia nas folhas, sentiu medo pela primeira vez na vida. Olhou para o seu redor buscando o que a inquietava. Bateu os olhos numa figura estranha, um homem estava observando. Era uma figura estranha, mas não sentiu mais medo. Estava todo vestido de branco e emitia paz, muita paz. Teve a impressão de ver uma nuvem pairando ao redor dele, mas supôs que era apenas imaginação vinda das taças de vinho que tinha tomado.

– Olá, minha linda, não pare de tocar. Tens a voz mais bela que já ouvi. Tens o dom de trazer paz a este meu coração já tão destroçado que nem sabe mais.

Ficou alguns segundos sem ter o que dizer. Aquele rosto estranho era familiar, um sorriso intrigante. Não chegava a ser bonito, mas atraia ela de modo assustador. Não sabia o que responder. Não sabia o que pensar. Não ousou falar. Apenas começou outra canção:

I’ve been roaming around
Always looking down at all I see
Painted faces, fill the places I can’t reach
You know that I could use somebody
You know that I could use somebody
Someone like you, and all you know, and how you speak
Countless lovers under cover of the street

– Gosta dessa? – inquiriu ao terminar. Mas ele não estava mais lá.

Resolveu que já era hora de voltar para o seu quarto. Não sem antes olhar para todos os lados, o medo voltou. Mas agora era uma sensação mais estranha ainda. Queria saber tudo sobre aquele homem. Se realmente existia ou se era apenas fruto de sua imaginação. A tristeza profunda já não era sua amiga, agora a curiosidade e uma fome tremenda tomaram conta do seu corpo.

De onde viera aquele homem? Não tinha vizinhos. Não tinha ninguém por perto. Não.

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Uma resposta to “Ana”

  1. Tatianne Says:

    Tudo se encaixa… Simplesmente perfeito! Me fez querer comentar…


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