Deixa Pra Lá.

8 de junho de 2010

A viagem não era longa, mas eu preparei meu Ipod pra longas distâncias. Coloquei meus melhores discos nele para o tédio não me pegar. Pra acompanhar a música minha HQ, “Journey Into Mistery” numa edição histórica com capa dura. As primeiras histórias do Thor.

Na verdade, eu não tinha a menor idéia de como era andar de Trem. Devo admitir que estava um pouco nervoso. Sempre passo vergonha nas minhas “primeira vez”. Lembro quando comprei o bilhete único do transporta público em SP e não sabia como passar o cartão no metrô. Atrapalhei a fila todinha no horario do rush, até que alguém me salvou.

Dessa vez não fui afoito e fiquei no fim da fila, observando a todos.

– Your place is cabin 30. There will be three more passengers, ok?

Nessa hora começou o desespero. Será que ele falou 13 ou 30 (Thirteen ou Thirty)? Por sorte, eram só cabines pares. Fiquei aliviado. Achei muito engraçado a cabine, era como uma sala de Tv. Com quatro lugares pra sentar. Tipo aqueles restaurantes antigos. Todos vermelhos. lustre bem decorado. Agradeci por ter deixado Gwen comprar meu lugar.

Era só eu. Escolhi o lugar perto da janela. Pensei que seria bom viajar só. Dava até pra rabiscar algumas ideias no meu caderno quando cansasse do Thor. Depositei minha mochila na bancada. Liguei o Ipod e começou NEVERMIND.

Quando os gritos de Kurt Cobain tomavam meus pensamentos entrou na cabine aquela menina. Era ela, só podia ser. Pele branca feito porcelana envolvida por roupas, cabelos e olhos negros. hello, hello, hello, how low.

Desisti do Thor. Desisti do caderno. Desisti da bíblia. Quem era Deus?

Here we are now entertain us.I feel stupid and contagious.
Ela apenas puxou um livro da sua bolsa. Sem olhar pra mim, nem cumprimentar. A insustentável leveza do ser. Lembrei como achava engraçado esse título quando era criança. Era fã de paradoxos. Ainda sou.
– MAradona? – retrucou o novo “habitante” da cabine ao deparar com minha camisa da Argentina por baixo do casaco.
– Yes. I’m a big football fan.
– Me too. I’m supporter of Arsenal.
– Leeds.
– Nobody is perfect. My name is Nick
– George
Pronto. Melhores amigos forever. Falamos sobre Premier League. Copa do Mundo. Dennis Bergkamp. Arsene Wenger. E eu só pensando no que pensava a menina de preto.
Take your time, hurry up. Choice is yours, don’t be late. Take a rest, as a friend

Ainda faltava uma pessoa para completar o quarteto fantástico. E pelo andar da carruagem seria o Coisa. Eu já imaginava um cara bizarro de pedra entrando na sala. (Apesar de que a Sue Storm é loira e não tem nada a ver com a menina de preto.)

E como os dentes dos ingleses são feios. Porra, escovem os dentes, bando de porra. Mas os delas eram perfeitos, logo pensei que não era inglesa. Acho que tcheca. Sei lá. Tchecas são legais.

We don’t have to breed We can plant a house We can build a tree I don’t even care

E a espera continuava. O gunner só agora notara a beleza da menina de preto e então, falastrão como era, começou a puxar assunto e ela meio que o ignorava. #fail.

I’m so happy ‘Cause today I’ve found my friends.They’re in my head!

E “Polly” passou batida. Até que o Coisa chegou. E era sim a coisa mais linda que eu já tinha visto.

– What the hell? – Nick não se conteve.

Eu ri. Ela riu. A menina de preto riu. Acho que se juntassem Jennifer Connelly e Eva Mendes  (minhas musas) ela ainda seria mais bonita.

– My name is Angel. What’s your names?

– Nick Hornby. Nice to meet you. – se levantou e beijou a mão da loira.

– George Raposo. But you can call me GD. – respondi

– Jmenuji se Amelie. Mé jméno je francouzština. Moje matka byla Francouzka. Já jsem česky.

Olhos arregalados. Tcheca. eu sabia. Eu sabia!

– Do you speak English?

-No.

– Alors nous parler en français.

Merda! Eu sabia que tinha que aprender francês. Minha mãe sempre me disse isso.

Os gritos em “Territorial Pissings” me acordaram do meu devaneio. Quem sabe aquelas duas deusas se beijando. Só seria melhor se o mala não estivesse na cabine.

Elas conversaram a viagem inteira. Melhores amigas. E eu ouvindo “Drain You” e lendo HQ’s. Parecia um idiota. Pelo menos não roncava como o ‘amigão.

De repente, Angel começa a chorar. Nunca saberei a razão. Quis perguntar. Preferi calar.

Love myself better than you. I know it’s wrong. So what sould I do?

Elas se abraçaram como melhores amigas fazem. As palavras agora eram em russo. Sim, esqueci de dizer que Angel era russa. Ficou tudo confuso de repente.

Seria engraçado se alguém visse:

Uma loira russa peituda e chorona. Uma branquinha tcheca calada e séria. Um brasileiro idiota e infantil. Um inglês desdentado chato e dorminhoco.

E de repente. Something in the way repetida diversas vezes no fim do disco.

(Ps. Depois de 5 anos encontrei a Amelie e estamos juntos até hoje. O Nick casou com a Angel. Tem 3 filhos. )

Deixa pra lá

* Ainda vou te encontrar, te beijar e dizer que pode ser, dessa vez *

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Uma resposta to “Deixa Pra Lá.”

  1. meumaracujah Says:

    jura que saiu tudo dessa cabecinha maluca? haha! viajei junto!


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